Espiritualizando



Fé Racional

"Em lugar da fé cega que anula a liberdade de pensar, ele diz: Não há fé inquebrantável senão aquela que pode olhar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade. À fé é necessária uma base, e essa base é a inteligência perfeita daquilo que se deve crer; para crer não basta ver, é necessário, sobretudo, compreender. A fé cega não é mais deste século; ora, é precisamente o dogma da fé cega que faz hoje o maior número de incrédulos, porque ela quer se impor e exige a adição de uma das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre arbítrio." (O Evangelho Segundo o Espiritismo.)

Espiritualize-se...

Sábio é aquele que a tudo compreende e nada ignora. Deus não impôs aos ignorantes a obrigação de aprender, sem antes ter tomado dos que sabem o juramento de ensinar.

Nenhum mistério resiste à fragilidade da Luz. Conhecer a Umbanda é conhecer a simplicidade do Universo.



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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Espírito Orixá Mallet e as Entidades do Sr. Zélio Fernandino de Morais



Muito se tem escrito sobre o espírito Orixá Mallet, palavras orquestradas por grandes estudiosos, mas ainda notam-se lacunas que induzem ao raciocínio.

No cenário da estruturação da Umbanda no Brasil, o espírito Orixá Mallet foi um dos importantes espíritos designados para esta missão, e desceu em terra pela Umbanda em 1913, cinco anos após o Caboclo Sete Encruzilhadas ter se manifestado, e por sua vez, o Caboclo Canguruçu, de quem pouco se tem noticia, mas sabe-se que era um caboclo curador, manifestava-se no seculo XIX , na região norte do país, ladrilhando os caminhos que dali em diante seriam traçados.

A Umbanda trazida pelo Sr. Zélio, foi como uma nova versão da 3ª Revelação, uma estratégia da espiritualidade nos despertar para a mensagem de Amor e Paz como caminho iluminativo. O Espiritismo havia descambado para o intelectualismo excessivo e a Espiritualidade tinha pressa em promover o saneamento das almas e a pacificação dos sofrimentos e desigualdades seculares, trazidos pelas guerras, atrocidades, escravidão.

Veio a Umbanda, diferente do Espiritismo, por ter um vigor atuante, chamar à razão e à responsabilidade de cada um, sem sombra de paternalismo, sem dogmas de processos infernais ou paradisíacos, senão um cumprimento da Lei Maior.

Com o surgimento do espírito Orixá Mallet, rapidamente ele alcançou lugar destacado no panteão da Umbanda, passando trabalhar nos trabalhos de desmanche e magia, e sendo respeitado pelas outras entidades do Sr. Zélio, o Pai Antônio e o próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas. Trabalhava com animais em seus trabalhos, mas os mantinham vivos. De um “temperamento” forte, tanto podia promover materializações de borboletas, proteger pombas, como atirar pedras em médiuns, como o fez na cachoeira e inusitadamente carregar por meio quilometro até a linha da água do mar, o Sr. Benjamim Figueiredo, que depois disso abriu a Tenda Mirim.

O Irmão Cláudio Zeus, explica em um estudo sobre a Umbanda Branca e Demanda, da época onde são relatados os feitos do espírito Orixá Mallet, que considerava-se orixá uma entidade de hierarquia superior e que representava, em missões especiais, de prazo variável, o alto chefe de sua linha. Continuando, Zeus relata que na linha de pensamento desta Umbanda Original, os Orixás eram espíritos humanos com certas peculiaridades em essência e não elementos ou elementais da Natureza, e sequer ancestrais divinizados, conceito este que se estende até hoje em boa parte das Umbandas não africanizadas. Mas essas considerações poderão ser desenvolvidas em um outro estudo, tão extenso se tornou, devido as nuances variadas que a Umbanda hoje manifesta, tanto pela evolução do pensamento, como pelas vivencias ocorridas, consequentemente à sua constante expansão, desde estas primeiras histórias aqui relatadas.

Leal de Souza, em seu livro, relata que em uma reunião fechada, com cerca de 20 pessoas, o espírito Orixá Mallet começou a traçar pontos no chão, e levou a mão até eles, e dali se materializaram duas borboletas amarelas, em seguida tocou a mão do próprio Leal de Souza depositando ali a terceira borboleta, dizendo que ele veria a borboleta ao chegar em sua casa, e também em seu trabalho. E assim foi, chegando tarde da noite dos trabalhos mediúnicos, encontrou a borboleta amarela ao chegar em casa, e no dia seguinte, dentro do local onde trabalhava, seus colegas, surpresos, constataram que uma borboleta amarela pousava sobre sua cabeça.

Mais adiante, na mesma obra, há o relato que o autor se dirigiu ao Rio Macacu, no município de Cachoeiras de Macacu, levando duas pombas brancas, segundo fora solicitado, ao chegar lá, o espírito Orixá Mallet riscou um ponto no chão e as aves ficaram como que imantadas ao local. Depois disso, o espírito comentou que os animais não suportariam a carga que estavam sendo movimentadas, e enviou as pombas até a outra margem, e lá elas ficaram, até o final do trabalho, quando então voltaram por sua vontade, são e salvas.

Sobre o episódio da pedra o que ocorreu foi o seguinte:

“João Severino Ramos, dirigente da Tenda São Jorge, mais uma das tendas fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, ao fazer sua primeira visita a Zélio em Cachoeiras de Macacu, se mostrava cético e incrédulo, pedindo provas para crer.

O Orixá Malet (da vibração de Ogun) pegou uma pedra à beira do rio e acertou bem no meio da testa de Severino que caiu dentro das águas. A entidade proibiu os amigos de socorrê-lo e pediu que esperassem minutos depois Severino atravessou as margens do Rio Macacu já incorporado de Ogun Timbiri, com quem trabalharia à gente da tenda citada. ”

(Fonte: Revista Espiritual de Umbanda – Nº 08)


Muito se fala sobre a oferenda utilizando carne de porco, o que parece ir contra os princípios trazidos pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. E entrevista para esclarecer este assunto, a neta do Sr. Zélio, a Sra. Lygia nos esclarece no Blog do nosso irmão Cláudio Zeus (Umbanda Sem Medo):

“O ritual para elaboração da comida de Ogum foi trazido por Orixá Mallet (uma das entidades que atuavam junto ao Caboclo das Sete Encruzilhadas, também através de meu avô) que seria obrigatoriamente um sarapatel. O sarapatel era feito com os miúdos de um porco castrado, por isso usava-se o animal com esta característica. Ele era morto por uma pessoa de fora do terreiro, fora da TENSP, habilitado e contratado para tal. A carne era usada como alimento para qualquer refeição.”

Este relato afasta completamente a afirmação de alguns, quanto ao sacrifício de animais, que não era fato, em relação a esta oferenda. Ela ainda afirma que nos dias atuais, tal oferenda é comprada em mercados, junto com os ingredientes que são utilizados nas demais oferendas.

A respeito de Benjamim Figueiredo e sua iniciação de forma um tanto diferente, pois carregado por meio quilometro pelo espírito Orixá Mallet, foi lançado ao mar, quando o espírito afirmou então que ele estava apto para trabalhar e ser dirigente da tenda que foi depois chamada Tenda Espírita Mirim (TEM). Abaixo, o relato citado por Pedro Kritiski (Blog Registro de Umbanda), que por sua vez extraiu de antigo site da TEM:

“O Kardecismo veio para o Brasil através da família Figueiredo. Em 1920, esta família realizava sessões de Kardec na Rua Henrique Dias nº 26, na Estação do Rocha, Rio de Janeiro.

No dia 12 de Março de 1920, o Médium Benjamim Gonçalves Figueiredo, teve a primazia de incorporar, pela primeira vez, o Caboclo Mirim, Grande Mestre que veio para nos ensinar a Escola da Vida, que poucos conheciam na época.

Após a sua chegada, O Caboclo Mirim anunciou que aquela seria a última Sessão de Kardec e que as próximas Sessões passariam a ser de Umbanda. Em uma de suas mensagens ele disse que a partir daquele momento a TENDA ESPÍRITA MIRIM seria reconhecida mundialmente e advertia que a mesma seria uma Organização única no gênero em todo o Brasil, cujo método seria adotado por outras Tendas, até mesmo em outros Estados da Federação, o que, mais tarde, teríamos a oportunidade de comprovar.

O Caboclo Mirim, Espírito Missionário, preparou a antena receptiva daquele que seria o intermediário do seu programa, de suas ordens e de suas mensagens, ou seja, o seu Médium, que preservaria a sua missão e que cumpriria, religiosamente, a sua tarefa.”

Chamado de “Capitão de Demanda’, de acordo com Leal de Souza, era emissário de Ogum, trouxe dois auxiliares, dois malaios como ele, e alem de cinco falanges do Povo da Costa ,diz-se que haviam seis falanges do Oriente e arqueiros de Oxóssi, muitos da falange de Seu Ubirajara. Nas tendas fundadas sob a inspiração do Caboclo das Sete Encruzihadas seguia-se a aceitação de médiuns da casa somente após o ritual da fita vermelha , ritual este comandado pelo Orixa Mallet.

Leal de Souza ainda relatou em “O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda” que espírito Orixá Mallet foi um malaio na sua última encarnação e veio de formosa ilha do Oriente, tendo sido ali príncipe reinante. Por coincidência ou não, a Malásia tem como limite ao norte, a ilha Formosa, ou Tawain, e a região era rota de comércio, onde passavam naus portuguesas, e inclusive há construções portuguesas no local, datando dos primeiros anos de 1600. Era uma região onde predominantemente seguiam o Alcorão, mas também havia influência de budistas e tibetanos.

O interessante é que não se sabe muito do trabalho do Povo da Costa e o Povo do Oriente que trabalhou com o espírito Orixá Mallet. Pressupõe-se que eles tinham uma missão naquele momento de implantação das tendas, e prosseguem no astral, irradiando sua luz, porém no anonimato.

Sob a irradiação de Ogum, coincidentemente com a atuação e influência do espírito Orixá Mallet, também em terra se manifestou o Sr Marabaroô, exu da coroa do Sr. Zélio, que era cuidado por dona Zilca , irmã do Sr. Zélio e daí em diante a linha de trabalho dos Exus se efetivou de maneira discreta na Tendas, e aos poucos foram se manifestando mais entidades desta linha chamada de esquerda, até que hoje há giras só para seu trabalho, mas isso não ocorre na T.E.N.S.P. Nesta Tenda, independentemente de que gira esteja e precise do trabalho de Exu, estes espíritos descem (sempre em médiuns mais antigos da Tenda) fazem o que tem que fazer e nem mesmo o assistente percebe que foi cuidado por um Exu, quanto mais o publico presente. Diferente que muitos falam na T.E.N.S.P. existe sim giras de Exus, mas estas são fechadas para o publico.

A história não registra quando estes espíritos que tanto atuaram nos primórdios da Umbanda desceram em terra pela última vez. Sabe-se que o espírito Orixá Mallet era um espírito que exauria as forças do franzino corpo de seu médium. Falava pouco, quase somente por gestos, ou era Pai Antônio que trazia suas ordens e ensinamentos nos trabalhos de demanda e estabelecimento de disciplina. Foi a última entidade a se manifestar e a primeira a parar, através do Sr. Zélio. Contam os estudiosos que assim foi devido a sua grande elevação, de alta escala vibratória. Seria o espírito Orixá Mallet mais iluminado que o Caboclo das Sete Encruzilhadas? Ou apenas suas missões já eram previstas pela Espiritualidade, o Caboclo com sua tendência a anunciar, organizar e evangelhizar, enquanto que o espírito Orixá Mallet agiria disciplinarmente, na proteção, segurança, combatendo o mal e as demandas, ações estas que se refletem em cada terreiro de Umbanda, em cada filho de Banda, até os dias de hoje?

E Pai Antônio, que demonstrou desde logo a humildade e candidez característica da Linha de trabalho dos Pretos Velhos, seguiria sua missão de sábio curador, além de encantar a todos e mostrar ao mundo do início de 1900 que as correntes estavam verdadeiramente quebradas, que um mundo novo, livre e igualitário tinha de surgir por toda parte, e que a vibração de um preto velho tinha também direito e Luz suficientes para estar presente tanto qualquer outra, nas searas da manifestação do espírito para a Caridade.

Sabe-se que Zélio poderia trabalhar com 147 orixás, dentro das 7 linhas, mas apenas dois se manifestaram pelo que se tem notícia. Não Orixá como Força, mas como representantes das linhas, 21 orixás para cada uma das Sete Linhas, de acordo com a UBD (Umbanda de Linha Branca e Demanda). Certamente o que não chega até nós, não é porque não exista, mas porque não estamos preparados para conhecer a chave destes mistérios, levantar o Véu destes portais.

Pos Alex de Oxóssi

Fontes Pesquisadas:
Comunidade Povo de Aruanda
Blog Umbanda Sem Medo
Blog Registros de Umbanda
Souza, Leal. “O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda”

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Quem Foi O Caboclo das 7 Encruzilhadas?


                ... E no entardecer :

E no entardecer do dia 21 de setembro de 1761, na Praça do Rossio, no centro de Lisboa, um santo foi queimado na fogueira dos hereges. Gabriel Malagrida entregou a alma a Deus e o corpo aos carrascos. Tinha 72 anos, 30 deles passados de pés descalços peregrinando pelo Norte e Nordeste brasileiros. Ergueu igrejas e mosteiros, protegeu índios e prostitutas, caminhou mais de dez mil quilômetros entre o Pará e a Bahia. Ganhou fama de taumaturgo, milagreiro. Por ordem e trama do primeiro-ministro Marquês de Pombal, Malagrida terminou acusado de blasfêmia e heresia. Ouviu a sentença de morte no alto de uma carroça, com um barrete de palhaço na cabeça, mãos amarradas para trás e batina pintada com figuras demoníacas. Quando Pombal, ao lado do rei d. José, ordenou a execução, o padre beijou as escadas do cadafalso, virou para o povo, jurou inocência e perdoou seus acusadores. Abaixou a cabeça, ajudou ao próprio algoz a colocar a corda em seu pescoço. Na primeira puxada, o laço se rompeu e a multidão gritou assombrada. A tragédia estava adiada por alguns minutos. Homens e mulheres começaram a prece dos agonizantes, mas não terminaram a oração. Foram impedidos pelos quatro mil soldados de prontidão. ‘‘Senhor, nas vossas mãos entrego minha alma’’. Derradeiras palavras. Em poucos segundos, o padre estava enforcado pela Santa Inquisição. O carrasco acendeu a fogueira, onde o corpo queimaria toda a madrugada, velado pelos milhares de fiéis. As cinzas foram jogadas nas águas do rio Tejo. Quando o dia amanheceu, os católicos de Lisboa espalharam uma mesma notícia: o fogo não queimara o coração do mártir. A tragédia de um peregrino Padre Severino ensina aos fiéis da Paraíba os feitos de Malagrida.

Gabriel Malagrida nasceu padre:
Ainda pequeno, na cidade de Menaggio, no Norte da Itália, aprendeu com o pai Giácomo, o dom da caridade. O patriarca era médico de renome, consultado até por príncipes, mas dedicava boa parte do trabalho ao cuidado de doentes pobres que visitava nas distantes montanhas. Gabriel ia junto. Adorava estudar religião e aproveitava as férias para ensinar catecismo aos irmãos e colegas da rua. Sua brincadeira predileta era montar altar no quintal. A mãe, Ângela, chamava o filho de ‘‘o anjo da casa’’. Era morada cheia de religiosidade. Na parte nobre da casa, havia o que os Malagridas apelidaram de o ‘‘quarto do santo‘‘ por conta do teto coberto de pinturas de Nossa Senhora. O sonho do casal era ver os filhos formados padre e rezando missa ali. O projeto deu certo. Dos onze herdeiros, três viraram sacerdotes. Aos 12 anos, o pequeno Gabriel foi estudar no colégio dos padres Somascos, na cidade de Como. Não era um aluno como os outros; tinha hábitos estranhos. Mordia os dedos até sangrar e quando lhe perguntavam a razão daquilo respondia: ‘‘é para a salvação dos infiéis’’. Nascia assim o costume das penitências físicas que o acompanhou até o fim da vida. Em 1713, no seminário, em Gênova, onde se formou jesuíta com 24 anos chegava a fazer jejuns três vezes por semana. Dizia que era para refrear a natureza e guerrear contra as tréguas do corpo. Era comum ele se açoitar publicamente. Uma vez, em Salvador, na Bahia, Malagrida rezava o sermão na Matriz quando lhe apontaram um homem pecador, cheio de vícios e de ‘‘ignóbeis costumes’’. Como não conseguia, com palavras, converter o cidadão, Malagrida, então, bateu-se com o chicote até o sangue espirrar de suas costas. Ao assistir à dolorida cena, o pecador não se conteve: em lágrimas, ajoelhou-se nos pés do padre, implorando com gemidos o perdão de seus crimes.

A Seguir... você vai conhecer um pouco da biográfia do peregrino que construiu abrigos para prostitutas, fez procissões imensas, criou a Ordem do Sagrado Coração de Jesus e denunciou padres e governadores corruptos. Para conhecer vestígios deixados pelo religioso no Brasil, A nossa equipe percorreu parte das trilhas de Malagrida no Piauí, Maranhão, Ceará, Paraíba e Pernambuco. Junto com o ‘‘Aos povos de Itália não cansam meios de chegar à salvação; além-mar, pelo contrário, inúmeras nações jazem ainda nas trevas da idolatria: vamos acudir a essas almas desamparadas’’. Com esses argumentos, Gabriel Malagrida convenceu o Bispo Geral dos Jesuítas a virar missionário nas Américas. Trocava os estudos avançados de teologia e literatura pela catequese dos índios. Saiu de Lisboa e desembarcou em São Luís do Maranhão no final do ano de 1721, mas demorou dois anos até ser mandado para a primeira missão com os índios. Seus superiores preferiam o erudito religioso nas salas de aula dos seminários de jesuítas e achavam que Malagrida não estava preparado para o convívio com os arredios nativos. Depois de muitas súplicas, o padre conseguiu realizar o antigo sonho. Foi missionário indígena entre 1723 e 1729. Percorria as matas a pé, vestido com a batina preta típica dos jesuítas. Não era a melhor maneira de atravessar o interior maranhense. ‘‘Quem quer andar por essas terras tem que se proteger do mato com roupa de couro e andar sempre a cavalo ou num burro’’, ensina José Assunção e Silva, o Zé Doca, boiadeiro na região de Caxias, antiga Aldeias Altas. Nesse lugar, Malagrida passou em 1726 para catequizar os Guanarés, etnia desaparecida do Maranhão. No Século XVIII, esses índios eram numerosos e arredios ao contato com os brancos. Já haviam sofrido com os portugueses quando Malagrida iniciou o trabalho de catequese. Penou até conquistar a confiança dos Guanarés. Chegaram a decidir em assembléia que matariam o padre. Só conseguiu escapar porque na hora da excução, uma índia velha conteve o braço do nativo. ‘‘Suspende’’, gritou a mu-lher. Explicou que da última vez em que um índio matou um padre roupeta-negra, terminou devorado por vermes. Assustados, os Guanarés liberaram o jesuíta. ‘‘Dificilmente se reconhece o tipo humano nos índios moradores desta região. Abrigam-se em cavernas como as feras e alimentam-se unicamente de caça. As vezes travam-se em pelejas e então devoram os vencidos’’, descreveu Mathias Rodrigues, um dos companheiros de apostolado de Malagrida e que escreveu relatos do tempo em que os dois estiveram no Brasil. O manuscrito de Rodrigues está hoje na biblioteca dos padres boulandistas, em Bruxelas, na Bélgica, mas o professor Vitor Leonardi conseguiu cópia microfilmada da preciosidade. ‘‘É o documento mais importante sobre Malagrida’’, resume Vitor que nos próximos meses irá editar livro com a íntegra do texto. Pelas linhas escritas por Mathias Rodrigues, Malagrida ainda considerava os índios bárbaros selvagens, mas não aceitava sua escravidão. Durante os seis anos em que conviveu com tribos do Pará e do Maranhão, o jesuíta defendeu a tese de que as aldeias deveriam ficar longe do contato com os portugueses. Temia pela saúde moral e física dos nativos. Ou seja, combatia a tradição dos colonizadores que pegavam índios para trabalhar na lavoura de cana. 

Em 1729, Malagrida foi retirado da missão indígena e levado para São Luís. 

Primeiro Milagre...
A vida na capital não sossegou o padre. Em São Luís, iniciou nova etapa de sua jornada: a de missionário popular. Ao invés de índios, cuidava agora dos brancos, moradores da periferia. Dava aula de teologia durante a semana e aos sábados partia para os povoados vizinhos de São Luís. Era livro grosso com as rezas cotidianas que, por vezes, servia de travesseiro quando o religioso adormecia no mato. Para se proteger da floresta fechada, usava um cajado, até bem pouco tempo guardado na Itália como relíquia e apelidado de ‘‘o bordão do peregrino’’ ‘‘Malagrida era pregador carismático’’, explica Miguel Martins Filho, 39 anos, padre, professor de literatura e diretor do Instituto Gabriel Malagrida, em João Pessoa. É ali que se formam todos os jesuítas brasileiros. O que Miguel chama de carisma aparece no jeito de Malagrida atrair os ouvintes. Nos dias santos em São Luís juntava os fiéis em frente a igreja e com um estadandarte nas mãos, saíam todos em procissão cantada pelas ruas da cidade. Paravam nas praças e o padre reunia o povo em volta dele. Ali, dava aula de catecismo, representava teatralmente as principais passagens bíblicas e depois interrogava a platéia sobre o assunto. Foi numa dessas pregações interativas em São Luís que Malagrida fez o que os livros tratam como seu primeiro milagre. Falava aos fiéis sobre a importância da reconciliação entre inimigos quando um dos ouvintes contou que cometera injúria mortal contra um de seus parentes. Na frente do antigo desafeto, contou que estava disposto a pedir perdão, mas o homem não quis fazer as pazes. Malagrida, indignado interferiu. ‘‘Meu irmão, não quereis perdoar ao vosso próximo para que o Senhor vos perdoe?’’. Repetiu a pergunta várias vezes, mas como o indivíduo insistia na recusa, Malagrida gritou atordoado: ‘‘Pecador, recusas a escutar o teu Deus que te convida a perdoar, não tardará que prestes conta a teu juiz da tua dureza, e sofrerás então o castigo merecido’’. Pronto, em menos de 24 horas o infeliz morreu com tiro de mão desconhecida. O povo passou a tratar Malagrida como ‘‘o profeta’’. Carregou esta fama para sua grande viagem missionária, iniciada em julho de 1735 do Maranhão até a Bahia. Primeira longa parada: Piracuruca, no norte do Piauí. ‘‘Servia de igreja aí uma vil casa de farinha com quatro paredes mal pintados por cima, cheia de morcegos. Eu mesmo dei a idéia de construir grandiosa igreja. Todos ofereceram suas esmolas’’, conta Malagrida numa carta mandada ao Bisbo do Algarve, em Portugal. Passados 262 anos, o templo de Piracuruca está de pé. Seu padre, José da Silva Ribeiro, 37 anos, vive pedindo esmolas aos moradores da cidade. Para Malagrida, o Brasil parecia uma Babilônia de pecados. Reclamava dos casamentos fora da Igreja, se horrorizava com a luxúria dos padres e se impressionava com o número de prostitutas. Nos oito dias em que passava em cada cidade, o jesuíta pregava contra os amancebados, chegava a praguejá-los. Em fevereiro de 1744, fazia missão no povoado de Várzea Nova, no interior da Paraíba, quando descobriu homem e mulher que viviam juntos há anos sem oficializar a união. Malagrida foi até a casa dos dois. Tentou convencê-los a dar um ‘‘jeito cristão’’ à história. A mulher concordou, mas o homem achou bobagem aquele falatório do padre. Malagrida renovou seus pedidos, fez pregações públicas sobre o caso, até que num dos sermões avisou que se o cidadão não mudasse de idéia se perderia para sempre. Em 24 horas, o homem morreu com uma terrível dor de cabeça. Neste mesmo povoado de Várzea Nova, a fama milagreira de Malagrida resistiu ao tempo. ‘‘Desde menina, ouço os antigos contarem que o padre Malagrida encostou a mão numa criança que morria de febre e ela ficou logo boa’’, diz Maria Salete da Silva, 58 anos, nascida na região. Ali, não há mais as curas providenciais do padre, porém quem adoece é atendido no posto de saúde de nome Gabriel Malagrida. Na frente, há uma enorme estátua de cimento do jesuíta. 

Vigários do Prazer...
Durante suas expedições, Malagrida cruzou com muitos companheiros de batina fora da linha. Alguns chegavam a cobrar para rezar missa, outros conheciam os prazeres da carne. Tinham mulheres e filhos, o que para Malagrida era um escândalo sem precedentes. ‘‘Esbarrei num vigário que tinha três mancebas patentes e vinte filhos’’, denunciava o missionário em carta aos superiores. Se o barbudo Malagrida era exigente com os fiéis e religiosos, pior ainda era sua auto-cobrança. Tamanha austeridade impressionava até os poucos padres corretos das vilas por onde passava. ‘‘Depois de um sono brevíssimo, o santo padre começava a meditação. Recitadas as horas canônicas, dirigia-se ao confessional e daí por volta da hora décima da manhã, subia ao tablado e explicava a doutrina cristã. Permanecia em ação de graças até a primeira hora da tarde e até mais. Voltando a casa comia, ou poucas favas ou um pouco de leite’’, relatava em carta João Brewer, padre de Ibiapaba, cidade onde Malagrida ficou entre 5 e 17 de fevereiro de 1747. O lugar, chama-se hoje Viçosa do Ceará. Lá, no altar da igreja matriz ainda existe uma imagem de Gabriel Malagrida, de quatro palmos de altura. ‘‘Ele está vestido de São Francisco de Assis porque a imagem foi mandada para reforma e o artista adorava os franciscanos’’, explica o monsenhor Francisco das Chagas Martins, pároco da igreja há 50 anos. ‘‘Tudo aqui é antigo. Nossa igreja é a mais velha do Ceará. Foi fundada em 1602’’. 

Madalenas...
O maior tormento de Malagrida eram as ‘‘mulheres da vida’’. Considerava a prostituição um dos problemas mais graves da colônia. ‘‘Naquele tempo, se uma menina perdia a virgindade, caía em desgraça na sociedade e acabava entrando para a prostituição. Malagrida sonhava em fazer alguma coisa por essas mulheres’’, conta Ilário Govoni, jesuíta italiano, morador de Terezina e autor do único livro publicado no Brasil sobre Malagrida. Chama-se O Missionário Popular do Nordeste. O desafio de ‘‘endireitar’’ prostitutas perseguiu Malagrida até 1742, quando conseguiu financiamento para construir o Convento do Sagrado Coração de Jesus em Igarassu, em Pernambuco. Ali, abrigou 40 mulheres da vida, desejosas de conversão. Saíram em romaria de João Pessoa até a cidade pernambucana. ‘‘Este asilo de Madalenas arrependidas tinha âmbito regional. Às que não podiam casar, por causa de impedimentos ou delas próprias ou dos homens com quem viviam, por já serem casados, abriam-se-lhes as portas desta casa, onde ficavam ao abrigo da miséria e de recaídas’’, escreveu o historiador Serafim Leite, no livro a História Eclesiástica no Brasil. ‘‘Hoje só aceitamos donzelas. Todas nós somos donzelas’’, apressa-se em explicar Maria Medeiros de Paula, 48 anos, e atual diretora do Convento. É freira desde os 17 anos, nunca teve namorado e não gosta muito de falar do passado de pecado das fundadoras da instituição. ‘‘Hoje, só entra na Ordem do Coração de Jesus moça virgem’’. A 60 km dali, em João Pessoa, num outro endereço com placa de Malagrida, perder a virgindade é ganhar a vida. Na rua Gabriel Malagrida, no centro da capital paraibana, funciona o baixo meretrício da cidade. ‘‘Esse Malagrida era dos nossos. Nosso santo protetor’’, brinca dona Lucila Martins, 59 anos, dona de um dos bordéis da rua. 

O Triste Fim...
O triste fim do missionário em janeiro de 1754 Gabriel Malagrida embarcou para Lisboa certo de que conseguiria mais recursos para suas obras no Brasil. Enganou-se, embarcou para a morte. Famoso na corte por seu carisma de pregador, Malagrida era o confessor da rainha, o que despertava ciúmes de poderosos emergentes como Sebastião José de Carvalho, o Marquês de Pombal. Quando a rainha morreu, em 1754, Pombal virou primeiro ministro de Dom Jose I e iniciou perseguição sistemática contra Malagrida. Irritou-se profundamente quando, após o terrível terremoto de Lisboa de 1755, o religioso escreveu panfletos associando a tragédia às maldades da corte. Pombal não se conteve. Conseguiu que Malagrida fosse mandado para a cidade de Setúbal. Atentado em 3 de setembro de 1758, o rei D. José sofreu atentado quando voltava de uma farra noturna. Pombal arranjou testemunhas para envolver Malagrida no caso. No dia 9 de janeiro de 1759, Malagrida foi preso por crime de lesa majestade. Ficou numa cadeia imunda, onde usava tinta de paredes para escrever dois textos religiosos: um sobre a vida de Sant’Ana e outro sobre o retorno do Anti-Cristo. Malagrida acreditava que o apocalipse aconteceria em 1999. O incansável Pombal aproveitou para denunciar Malagrida à Inquisição como herege, mas os próprios juízes do Santo Ofício admitiram que não havia razões para condenar o religioso. Pombal, então, destituiu o presidente do Tribunal e nomeou seu próprio irmão, Paulo de Carvalho. A outra questão era a guerra guaranítica, travada no Sul do Brasil. Os jesuítas se aliaram aos índios contra os portugueses que queriam ampliar as fronteiras do país. Isso tudo não culminou apenas na morte da Malagrida. Em 1759, Pombal expulsou os jesuítas dos domínios portugueses. Foi mais longe. Em 1773, conseguiu do Papa Clemente XIV, a extinção da Companhia de Jesus em todo o mundo. A Companhia só voltou a existir em 1814 e os jesuítas só retornaram ao Brasil no final do século XIX.

Essa é a História de Gabriel Malagrida o nosso Saudoso Caboclo das 7 Encruzilhadas.

Saravá Umbanda.

Ouça os Pontos da Linha de Esquerda da Umbanda

A Umbanda não é responsável pelos absurdos praticados em seu nome, assim como Jesus Cristo não é responsável pelos absurdos que foram e que são praticados em Seu nome e em nome de seu Evangelho. Caboclo Índio Tupinambá.

Caboclo Índio Tupinambá

Caboclo Índio Tupinambá
"...Onde quer que Você esteja... meu Menino... Estarei Sempre com Você... Anauê!"

Luz Crística

Pense Nisso...

"Estudo, requer meditação. A meditação leva a conclusões. E as conclusões fazem com que as pessoas modifiquem os seus hábitos e suas atitudes" – Dr. Hermann (Espírito) por Altivo Pamphiro (Médium)

Obras Básicas da Doutrina Espírita - Pentateuco Espírita

O Livro dos Espíritos - Contendo os princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade – segundo o ensinamento dos Espíritos superiores, através de diversos médiuns, recebidos e ordenados por Allan Kardec. O Livro dos Médiuns - Contendo os ensinamentos dos Espíritos sobre a teoria de todos os gêneros de manifestações, os meios de comunicação com o Mundo Invisível, o desenvolvimento da mediunidade, as dificuldades e os escolhos que se podem encontrar na prática do Espiritismo. Em continuação de "O Livro dos Espíritos" por Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo - Com a explicação das máximas morais do Cristo em concordância com o Espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida por Allan Kardec. Fé inabalável só é a que pode encarar a razão, em todas as épocas da Humanidade. Fé raciocinada é o caminho para se entender e vivenciar o Cristo. O Céu e o Inferno - Exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual, sobre as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e demônios, sobre as penas, etc., seguido de numerosos exemplos acerca da situação real da alma durante e depois da morte por Allan Kardec. "Por mim mesmo juro - disse o Senhor Deus - que não quero a morte do ímpio, senão que ele se converta, que deixe o mau caminho e que viva". (EZEQUIEL, 33:11). A Gênese - Os milagres e a predições segundo o Espiritismo por Allan Kardec. Na Doutrina Espírita há resultado do ensino coletivo e concordante dos Espíritos. A Ciência é chamada a constituir a Gênese de acordo com as leis da Natureza. Deus prova a sua grandeza e seu poder pela imutabilidade das suas leis e não pela ab-rogação delas. Para Deus, o passado e o futuro são o presente.
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